29 Março, 2011

yow granny!

Às vezes gostava de saber onde estás. Ou por onde andas. Talvez de onde vieste. Gostava de me sentar à tua frente e de falar contigo durante horas sobre o que nunca falámos quando tivemos tempo. Gostava que as palavras me saíssem tão fluentemente como a respiração que tenho: sem sequer fazer por isso. Só a respiração é que me sai sem mais nem menos.

Gostava que me dissesses como é que de repente, e sem eu notar, me fizeste ser tão tua, me fizeste fazer tanto por ti. Gostava também que tivesses uma explicação para nunca falares comigo quando te peço.

Não sei onde estás, ou como estás, ou se estás. Não sei se de repente a tua alma desapareceu ou se está contigo ainda, quente no teu corpo frio e mordiscado por estes bichos e aqueles, que entretanto se deitaram contigo. Talvez te consigam tirar a doença agora. Deviam usar bichos nos procedimentos médicos. Arriscado.

Tenho tantas coisas para te falar. Temos tantos bebés novos na família. Ok, são só 3... Achas que a tua grande alma se dividiu por eles? Achas que continuas connosco? Sempre?

Vês? Nunca me respondes quando te falo...

Há qualquer coisa que separa o desespero do escuro por cima dos meus lençóis e o conforto do escuro por baixo deles. Às vezes penso se, por teres adormecido sob o meu chão, para nunca mais acordar, há uma parte de ti presa debaixo da minha cama: porque os "fantasmas" não conseguem passar madeira e colchões de molas ferrugentas. Às vezes penso que quando estou para adormecer estás tu e uma data "deles" a olhar para mim, e também sinto que a qualquer momento me vai atravessar uma faca pelo peito. Desde que foste, ela está por lá algures, nunca nada fez um impacto tão grande sobre mim, que eu me movesse de forma a senti-la. E é sob os lençóis que me sinto segura, não há mais maneiras de o estar. Quer dizer, até há... Existem aqueles descansos sobre peitos fortes, com respiração cronometrada e com uma mão segura do que faz? Sabes como é, avó? Sabes quando estás tão segura no silêncio com alguém que queres mais ou menos que dure para a vida toda? Mas sabes como é o meu pai... Ele nunca me deixaria trazer o meu protector cá para casa: muito menos para o meu quarto.

E ainda por cima, há qualquer coisa que separa o alívio de teres ido e a vontade de querer que voltes.

Acho que nunca te fiz uma despedida em condições. Desculpa por estar tão ocupada com as minhas coisas e não te ter ido ver manhãs, tardes e noites… E estavas só um andar por baixo de mim. Desculpa se não via televisão contigo sempre que me pedias. Desculpa se nunca te disse com todas as palavras que te amo. Desculpa se te chateei quando te queria ensinar a escrever o teu nome.

Obrigada por me teres deixado a lembrança dos teus olhos verdes que pareciam azeitonas. Obrigada por me teres deixado puxar as rugas da tua mão enquanto vias televisão. Obrigada por me deixares fazer pipocas para gozarmos com o Benfica. Obrigada por me teres deixado todas as pequenas coisas que são enormes. Obrigada por não me teres deixado.

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